segunda-feira, 8 de julho de 2013

Elisabetta Sirani (1638-1665) A pintora mágica

Em 1635 nasce na buliçosa Bolonha uma menina que vai dar que falar no mundo da Arte.

Bolonha era a segunda cidade do pontificado papal, com uma antiga e reconhecida universidade e uma cultura viva se bem que em plena Contra Reforma.



De Givanni Andrea com a ajuda de sua fiha Elisabetta





Esta menina era filha de Giovanni Andrea, também ele pintor e comerciante de arte e
representante de  outros pintores, nomeadamente de Guido Reni.

Elisabetta cedo começa a revelar um dom extraordinário para a pintura. Aos 17 anos já  recebe  comissões e cria várias miniaturas para a devoção privada.


Da sua técnica sabe-se  que da ideia  ao esquiço veloz, passava aos estudos em aguarela e à execução a óleo chegando à obra completa. Mas rápida e bem, com prodigiosa perfeição nos detalhes, delicada escolha das cores e praticamente sem correcções.


autoretrato como santa 1658
A sua fama, quase mágica, de rapidez e perfeição era tal que chegavam a vir pessoas de longe para a verem trabalhar e observar se tal era realmente possível.
Aos 20 anos em 1658 e depois de já ter pintado vários temas para as igrejas locais recebe a primeira grande comissão, de Daniele Granchio, prior do mosteiro de S. Girolamo( S. Jerónimo) de  la Certosa: um Baptismo de Cristo.


autoretrato em giz circa 1660









Esta peça faz parte de um vasto projecto cristológico onde entraram vários e consagrados pintores da sua época como Francesco Gessi, Giovanni Andrea Sirani (seu pai), Lorenzo Pasinelli, Domenico MariaCanuti e Giovanni Maria Galli Bibienae e uma única e jovem mulher: Elisabetta Sirani.

Começa afanosamente os estudos preliminares para a obra que lhe abre, aos 20 anos, as portas do reconhecimento.



estudo para o Baptismo

 

O baptismo de Cristo 1658
 
Embora a temática fosse predominantemente religiosa,  Elisabetta Sirani pintou retratos, temas mitológicos, autoretratos numa obra vasta (e assinada) que continuaremos a descobrir nos próximos "posts"

sexta-feira, 17 de maio de 2013

La Tintoretta; Marietta Robusti (circa1560-1590)

Tintoretto auto retrato
Uma menina pequena vestida de rapaz acompanha o pai na oficina de pintura. O pai era Jacopi Robusti(1518-1594) o famoso Tintoretto( o "tintureiro"; alcunha que lhe vinha do mester do seu pai). A menina, Marietta Robusti ou La Tintoretta,  era a sua primogénita (fora do casamento). Dos sete futuros irmãos a mais querida e aquela que mais se assemelhava ao pai.

Marietta Robusti nasceu en Veneza em data que se desconhece algures entre 1554 a 1560.Com o pai aprende os rudimentos da arte, dele herda e desenvolve o traço cheio, o estilo chamativo e a paixão de pintar.

Porque o jeito para além de se herdar também se trabalha, desde cedo e tendo como mestre o seu pai, a sua pintura, principalmente na área do retrato aristocrático começou a ser apreciada na sociedade veneziana.

Não se lhe conhecem grandes encomendas para altares ou outras obras de monta. Se formos a ver de toda a sua pintura pouco se lhe reconhece realmente como seu, sendo de pensar que trabalharia em conjunto e em consonância com seu pai. O espólio de Marietta ter-se-á diluido no maior e mais conhecido corpo de trabalho de Jacopo. Mas o estilo e génios semelhantes induzem grande dificuldade nos eruditos em separar as obras acertadamente.

Marietta era também conhecida pelos seus dotes musicais e de canto. Numa das poucas obras que se lhe atribuem, sem dúvidas, o seu autoretrato, mostra-se junto a um pianoforte perfeitamente detalhado.


Pai e filha mantiveram-se fortemente unidos toda a curta vida de Marietta. Os convites de Filipe II e os de Maximiliano II, imperador do sacro Império Romano, para Marietta ir trabalhar em suas cortes, foram habilmente recusados pelo pai que não pretendia separar-se da sua filha. Até mesmo a condição para o seu casamento seria o de ficar a habitar na casa paterna até à morte deste.

Octavio Strada 1567/8
E foi isso que aconteceu ao casar em 1578 com o abastado joalheiro veneziano Mario Augusti.  Perde o seu primeiro filho Giacometti aos 11 meses de idade, e terá morrido, talvez, de parto, com 30 anos, malogradamente antes do pai.

É enterrada no jazigo da familia rodeada dos quadros do pai e muito provavelmente dela. Tintoretto, diz-se, que  breve, morreu de desgosto ao perder a sua filha muito amada, aquela que era realmente a herdeira e continuadora da sua arte, a pessoa com quem partilhava gosto e mestria. Jaz enterrado ao lado de Marietta na igreja de Madonna dell'Orto em Veneza.

 Contemporânea da nossa já conhecida Sofonisba Anguissola( 1532 - 1625) teve uma vida mais pequena e mais recatada talvez condicionada pelo pai e costumes da época, não muito abertos no que a escolhas femininas dizia respeito. Talvez por sua vontade.

Como seus quadros  figuram então: na galeria Uffizi: "retrato de senhora" e o seu autoretrato. "retrato de velho com rapaz"  ( 1585, Kunsthistorisches Museum) este último
tantos anos atribuído a Tintoretto pensa-se que realmente seja de Marietta dado o "M" tímido que aparece na assinatura.
retrato de senhora; museu do Prado( autoretrato em jovem?)


Curta a vida, excelente a arte.


Antoine-Joseph Dézallier d'Argenville, Abrégé de la vie des plus fameux peintres, A Paris, Chez De Bure l'Aîné, Quay des Augustins, du côté du Pont Saint Michel, à Saint Paul, 1745.

domingo, 24 de março de 2013

Giovanna Garzoni (1600-1670) Outra menina prodígio

O homem de artemino, 1648


Menina prodígio, tal como a já nossa conhecida Fide Galicia (1578-1630), Giovanna Garzoni nasce, talvez em 1600, em Ascoli-Piceno, perto da costa adriática em Itália.

Pouco se sabe dos seus inícios ou de quem a poderá ter ensinado. Terá, muito jovem, começado o seu trabalho como miniaturista de retrato, dedicando-se posteriormente à natureza morta.

cadelinha

Como outros pintores percorreu várias cidades em busca de trabalho e patronos. Na década de 1620 andava por Roma. Esteve 5 anos em Turim onde foi protegida dos duques de Sabóia.

Sustentava-se a si mesma e nunca casou.







Victorio Emanuel, duque de Sabóia, 1635, miniatura
Cristina de França, duquesa de Sabóia, 1635, miniatura





Carlos Emanuel I, duque de Sabóia, 1632-35













Em Florença continuou a sua arte tendo como patronos a corte dos Medici.







Figos




Voltou a Roma em 1651onde se manteve com trabalho constante e de sucesso até à sua morte em 1670.
Prato com ervilhas






Foi exímia pintora com um traço limpo e seguro. Basta ver as suas têmperas com pincel em velum (o seu meio favorito).







Têmpera com traço de pincel em velum



Era uma mulher do seu tempo, que aproveitou a ênfase humanística da observação directa e os surgimentos das várias taxonomias e classificações. Assim uma natureza morta, mais de que um género menor, configurava um trabalho quase científico de observação. O que explica também parte da excelente aceitação do trabalho de Giovanna Garzoni.

Têmpera com traço de pincel em velum


Parte da sua obra foi deixada a Accademia di San Luca, (dos pintores de Roma), atestando o reconhecimento que sempre obteve em vida.

Autoretrato 1650




quinta-feira, 7 de março de 2013

Artemísia Gentileschi( 1593-1651) Resgatar uma pintora da escuridão parte 2

Anjo, 1613
Depois do desatre emocional do julgamento, em Roma,  por violação, Artemísia casa-se ou é rapidamente casada com  Pierantonio Stiattesi numa relação que não foi nem duradora nem feliz. Deixa Roma e parte rumo a Florença.


autoretrato como mártir, 1615
 Aí entrega-se à sua arte, beneficia de patronos como os Medici e é ainda a primeira mulher a ser admitida na Academia de Pintura de Florença.











Madonna, 1609
Pinta fortes e variados temas; até arranja uma côr que era "só dela": o dourado de Artemísia




Sta Cecília

Madalena nmelancólica

Martírio de S. Januário,1637


Tecto, 1638/39, Inglaterrra










Tinha o seu quê de andarilha.  Afinal como pintora devia  procurar patronos e encomendas que lhe permitissem sustentar-se. Em 1621 volta para Roma; de 1627 a 1629 terá vivido em Veneza;
em 1630 muda-se para Nápoles , em 1638 trabalha 1 ano em Inglaterra sob a protecção de seu pai, ao tempo, contratado pelo  rei Carlos I.




Este seu autoretrato como alegoria da Pintura é o meu favorito.
Só alguém com muita força interior teria a coragem e o "descaramento" de encarnar a própria Arte que praticava.


Autoretrato como alegoria da Pintura, 1630

Em 1639 volta para Nápoles onde vive até ao fim dos seus dia tomada, talvez, por uma peste.

 
Morre uma excelente pintora, de grande traço e côr, herdeira digna de um Caravaggio e ainda mais digna, pelo valor próprio, de ver o seu nome resgatado da escuridão do esquecimento a onde tanto tempo foi votada.
 

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Artemísia Gentileschi( 1593-1651) Resgatar uma pintora da escuridão 1

Quem viu o post anterior percebe que estamos perante uma pessoa complexa e com vivências marcadas.
Susana e os velhos, 1610
Artemísia nasceu em Roma em 1593. Aí estuda a arte de pintar com Orazio Gentileschi, seu pai  e conhecido pintor ao tempo.

Rejeitada pela Academia romana de Pintura, nada de surpreendente em relação a uma mulher, continua os seus estudos com Agostino Tassi, antigo discípulo de seu pai.

Uma promessa de casamento não cumprida, leva a que Tassi seja acusado pelo pai de Artemísia pelo crime de violação, conduzindo a um "mediático" e torturante caso de tribunal que durou 7 meses.

Artemísia, provavelmente marcada por essa experiência, passa a pintar um modo de olhar os homens muito pouco benovolente. Homens  maculados pela luxúria em oposição  a mulheres que ou são poderosas pela sua coragem ou tentam sê-lo pela sua postura.


Jael e Sisera,(Jael matando Sisera, general cananita e opressor dos judeus) 1620
 Escolhe repetidamente heroínas biblícas que ultrapassam a sua condição feminina (como entendida à época) com actos de coragem quer na defesa dos seus povos como Esther, Jael e Judite, quer na defesa da sua honra como pessoas e mulheres, como Lucrécia e Cleópatra.


Judite e Holofernes , 1612
Esther suplicante, 1622


Lot e filhas, 1640
Cleópatra, suicídio, 1622

Lucrécia(suicídio de Lucrecia em defesa da sua honra),1621
 



 
Cleópatra, suicidio, 1630
Para o próximo post vamos decobrir mais facetas desta excelente pintora, que nasce no fim do Renascimento e se define e cresce no período Barroco

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Artemísia Gentileschi (1593-1651) uma alma inquieta

Nasce em Roma Artemisia Gentileschi em 1593. É a minha pintora preferida do Renascimento. Alma inquieta, vida intranquila.

Hoje e como de propósito deixo-vos a sós com estes quadros do tema já conhecido de Judite e Holofernes.

Judite cerca de 1612


Judite e Holofernes 1613

Judite e Holofernes 1613



Juditee a sua aia 1625


Evocam uma forma de pintar emotiva, cheia de força (e de raiva), uma maneira nuito diferente de uma mulher abordar este tema biblíco.

Algo que poderá ser, em parte, explicado pela história de vida conturbada de Artemísia, porque a outra parte é mesmo a arte de saber pintar muito bem.

Até ao proximo post.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Lavinia Fontana, Fama e Morte em Roma


Menina Gonzalez que sofria de Hirsutismo congénito
Da muito jovem pintora de pequenas miniaturas em metal passou  a pintora de nobres e grandes na corte papal. Foi das poucas mulheres à época  a retratar o nú feminino e masculino em pinturas de grande escala.

Desenhou e muito, pintou meninas peludas e cortesãs capazes de despoletar loucos amores. Pintou nobres e um Papa;

foi eleita, como já disse no post anterior, para a Accademia di San Luca di Roma, honra raramente atribuída a uma mulher.


 quadro dito, de Bianca Capello, nobre veneziana que se casa, porque foge, contra a vontade de seus pais, se torna depois amante e posteriormente a esposa de Francesco I de Medicci, manipulando e alimentando a coscuvulhice da corte durante vários anos.

 



A nobre Isabbela Ruini como Vénus

















 Lavinia Fontana morreu em 11 de Agosto de 1614, também em Roma.

Mas ficaram mais de cem obras pintadas, cerca de metade assinadas, sendo a mulher com mais obra feita antes do século XVII (pese o facto de muitos dos seus quadros terem erradamente sido atribuídos a Guido Reni).


A sua família
Os próximos posts serão sobre minha  pintora preferida do renascimento, essa mulher tão especial que foi Artemísia Gentileschi.

Catarina van Hemessen (1528- >1587) parte II

Com 26 anos Catarina casou com Kerstiaen de Moryn. Músico excelente, veio a tornar-se no organista da Igreja de Nossa Senhora de Antu...